O outro lado da moeda

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PÉ NA PORTA, SOCO NA CARA!

“O que eu espero senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todo mundo concorde comigo.” – Winston Churchill

Quando gostamos de alguma coisa, seja ela qual for, sempre enxergamos apenas as qualidades e ignoramos os defeitos. Mas dessa vez será diferente! Eu resolvi dar a minha mísera opinião sobre alguns problemas de usar “Linux”, mostrando assim, o “outro lado da moeda”. Para você se localizar nas minhas ideias, eu uso GNU/Linux desde final de 2007 e durante esse tempo, carrego alegrias e mágoas desse sistema que mudou a minha forma de usar um computador.


O Rwindows

Após se libertar do Rwindows, existe um suposto paraíso na cabeça dos empolgados por conhecer algo novo. Ah, Rwindows! Todo mundo que descobriu as maravilhas do “Linux” passa a chamar o Windows assim. Cospem no prato que passaram boa parte da vida comendo (e provavelmente ainda come, talvez escondido). Não estou aqui para defender um sistema operacional proprietário, mas temos que reconhecer que a maioria de nós que trabalhamos com TI estamos sujeitos, na maioria das vezes, a conviver com esse sistema pelos mais variados motivos. Geralmente, foi o primeiro que usamos nas nossas vidas.
Se defendemos um ambiente mais democrático na área de TI, já deveríamos começar aceitando os mais variados sistemas operacionais, independente de seu alicerce econômico. Afinal, vivemos em um sistema econômico capitalista, em que os meios de produção e distribuição são de propriedade privada e com fins lucrativos. Enxergando a área de TI como uma profissão, não podemos ignorar esse fato. Uma das grandes diferenças que percebi até agora entre Sofware Livre e Software Proprietário é que: o primeiro vende um serviço e o segundo vende um produto. O Software Livre é como um camaleão. Ele se adapta facilmente ao modelo econômico vigente, mas também poderia funcionar muito bem onde o objetivo fosse realmente em prol do coletivo.

Ao invés de impor uma barreira entre os sistemas operacionais, podemos fazer uma integração entre eles com o objetivo de “sucatear” o que é proprietário. Na prática, isso pode ser feito através da substituição de serviços proprietários por livres, atendendo as necessidade da empresa a contento. Um bom argumento é ter recursos investidos em um melhor hardware ao invés de ficar dependente de softwares de terceiros.

Mas, não esfregue a lâmpada se não quer ver o gênio. Não adianta forçar a barra quando não estamos em condições favoráveis para executar uma dessas substituições. Uma equipe escassa ou incapacitada pode ser facilmente sufocada (e demitida) por uma migração mal planejada. Infelizmente, boa parte dos “profissionais” de TI não têm tanta curiosidade de aprender coisas novas, seja por medo ou pela mais pura preguiça. Talvez, este último motivo seja o que atrai mais desse tipo de “profissional” para a área, criando uma bola de neve.

Outro ponto interessante, são as distribuições ou temas com “cara de Windows” que não precisam ser tratadas como se fossem heresias. Ao invés disso, são boas alternativas para fugir do software proprietário sem causar uma sobrecarga no suporte técnico por aproveitar a limitada bagagem de conhecimento do usuário comum.

 

A Liberdade

Retrocitado, um sistema operacional proprietário já vem enlatado ao invés de você mesmo colocar a mão na massa. Isso é uma espada de dois gumes: você pode atacar, mas também pode se ferir. Muitos, que na maioria são recém-chegados a este novo mundo, vivem saltitando e cantarolando aos quatro ventos sobre uma suposta “liberdade”. Muitos, nunca contribuiram com um singelo tutorial, uma simples dica, e quem dirá algumas linhas de código. Mesmo assim, insitem em afirmar que agora são “livres”. Livres para colocarem um tema ou pacote de ícones, ou talvez, para dar um tiro no próprio pé!

Acredito que o principal objetivo de utilizar um sistema operacional livre seja, economicamente e corporativamente falando, se livrar do monopólio vigente através do compartilhamento de conhecimento.

O Nazismo ou o Império Romano são exemplo de diversas tentativas frustradas de dominar o mundo. Nunca existirá algo que agrade a todos e Sistema Operacional não é excessão. Por isso o “Linux”, forma grosseira de chamar as distribuições de software livre que utilizam esse núcleo, fez tanto sucesso.

Essa nova forma de usar o computador criou um mundo onde cabem vários mundos. No passado, era restrito apenas a quem possuia um certo conhecimento, mas hoje uma instalação e operação já é algo praticamente trivial após uma rápida leitura. Talvez por isso a palavra “Linux” seja tão amarga e ácida quando pronunciada próximo aos ouvidos dos que simplesmente usam o computador.
Com tudo isso, eu percebo que essa “liberdade” não existe a nível de indivíduo e sim de comunidade. Existe um certo “darwinismo” entre as distribuições e somente as que se adaptam com o passar do tempo, conseguem “sobreviver”. Podemos notar que as grandes distribuições possuem uma empresa ou comunidade forte como alicerce. Querendo ou não, a real “liberdade” é apenas uma abstração. Estamos à mercê das elites que comandam essas empresas e das panelinhas que lideram boa parte das comunidades. Ah, você é “livre” pra concordar com isso ou não!

 

Os Senhores do Universo

O Software Livre abriga desde desenvolvedores altamente experientes até usuários finais. E isso é bom! Talvez não tão bom para os que buscaram o novo para se refugiar e se sentirem diferentes. Presencio frequentemente em fóruns, listas de discussão ou canais de IRC, alguns usuários “hardcore” humilhando os novatos. Geralmente esses seres supremos em conhecimento seguiram alguma “receita de bolo” para instalar uma distribuição como o Gentoo, Slackware ou Arch. Já esse novatos estão apenas buscando uma alternativa para uso do seu computador. Sei que muitos dos novatos são folgados como sapatos de palhaço, mas essas atitudes geram uma primeira impressão sob forma negativa. E isso é ruim! Acredito que basta indicar o caminho para os que realmente tem interesse em conhecer o sistema.

Citei essas distribuições por serem as mais “difíceis” de instalar. Mas isso não significa que simplesmente por usar uma delas, o usuário seja uma espécie de “deus do Linux”. Conheci muitos excelentes administradores de sistema que utilizam Ubuntu e conheci também péssimos e medíocres usuários de Slackware (e vice-versa). Distribuição não é uma escala para se medir conhecimento. Tocar mp3 no terminal é bem diferente de disponibilizar uma solução para uma empresa! Quero ver o camarada ter saco pra ficar recompilando kernel em um parque de máquinas imenso. “Time is money!”.

 

A salada insípida

Se não bastasse a presença desses conflitos de personalidades, existe também uma desunião em prol do coletivo. Ah! Eu já citei que o Software Livre acolhe a diversidade, mas em certo momento ela chega a atrapalhar. Faz muita diferença escolher ambiente gráfico se na verdade o que você vai usar são as aplicações? Por mais que eu instale o KDE, GNOME, XFCE, LXDE, Fluxbox, Openbox, Blackbox, IceWM, e etc. precisarei do GIMP para editar imagens, LibreOffice para editar meus documentos e assim por diante.

Acredito que o esforço perdido para atender caprichos de determinados nichos não tem aumentado a qualidade das aplicações. Não que elas sejam ruins, mas poderiam ser melhores se conflitos medíocres não dispersassem o foco de conquistar um sistema que atenda nossas necessidades. Deve ser bastante complicado desenvolver uma aplicação e ficar empacotando-a para as mais diversas distribuições, versões e ambiente gráficos. Existe o FHS (Filesystem Hierarchy Standard), mas não é toda distribuição que respeita! Nem todas seguem as melhores práticas e talvez seja por isso que aplicações específicas sejam “homologadas” apenas para algumas delas. Afinal, é um chute nas bolas ir resolver emergencialmente um problema em um servidor configurado por outra pessoa que usa alguma distribuição ortodoxa.

Além disso, para alimentar o ego dos supremos conhecedores de todos os segredos do Universo, existem os “refisefuquis”, abreviação de “remasters de fim de semana e fundo de quintal”. São geralmente criados por esses seres ou por pequenas empresas que fazem uns acordos com fabricantes de hardware. Nesses acordos, a GPL é ferida simplesmente pelo motivo de utilizarem do código livre sem dar nada em troca para comunidade. Você provavelmente deve lembrar de notebooks da CCE que vinham com aquele Satux Linux. A maioria desses notebooks ficavam com a placa wirelesse inutilizável pelo motivo do seu módulo estar disponível apenas no Satux (Distribuição do Satanás?).

 

Fonte de conhecimento

Um argumento interessante usado pela maioria dos usuários de software livre, é que existem soluções pra tudo pela internet, bastando procurar no google. Algumas vezes isso é sugerido arrogantemente pelos sujeitos medíocres retrocidados. Antes de tudo, a documentação oficial ou wiki do software é a melhor das alternativas. Não descarto a internet como fonte de conhecimento, mas por vezes é bem melhor adquirir um bom livro ou fazer um curso do que perder tempo em fóruns e não encontrar uma solução (corporativa, ora bolas!). Por muitas vezes, é uma forma de apoiar algum projeto. Se você quer realmente ser um profissional, esse é o caminho.

Agradeço você ter paciência de ter lido até aqui e espero ter lavado a alma de muitos que tinham a mesma opinião aprisionada. Abraços Debianos a todos!